Mark Zuckerberg testemunha em julgamento histórico sobre vício das redes sociais
Mark Zuckerberg testemunhou na quarta-feira num julgamento histórico em Los Angeles, no qual se alega que as principais plataformas de redes sociais foram intencionalmente concebidas para viciar crianças e adolescentes.
O caso, que começou na passada segunda-feira no Tribunal Superior do Condado de Los Angeles, centra-se em acusações contra a Meta — empresa-mãe do Facebook e do Instagram — e o YouTube, pertencente à Google. Os autores da ação defendem que as empresas criaram recursos que incentivavam o uso compulsivo entre os jovens consumidores, contribuindo para danos de saúde mental a longo prazo.
O processo foi interposto por uma jovem de 20 anos, identificada como "Kaley", e pela sua mãe, que alegam que foi exposta a recursos de design viciantes quando era criança. Os seus advogados afirmam que ela se viciou em aplicações de redes sociais desde os 6 anos. Diz que características como o scroll automático a viciaram nas plataformas, levando, em última análise, a ansiedade, depressão e problemas de imagem corporal.
Nas suas perguntas iniciais a Zuckerberg, o advogado de Kaley, Mark Lanier, questionou se uma empresa deveria "aproveitar-se" das pessoas vulneráveis.
"Penso que uma empresa razoável deve tentar ajudar as pessoas que utilizam os seus serviços", disse Zuckerberg.
No meio de uma tensa troca de palavras em tribunal, Zuckerberg admitiu que é difícil para a Meta impor restrições de idade no Instagram.
A política do Instagram refere que as crianças com menos de 13 anos não podem criar contas. O advogado da autora alega que Kaley começou a utilizar a aplicação aos 10 anos, antes da implementação destas novas restrições.
"Gostaria sempre que tivéssemos chegado a este ponto mais cedo, mas acho que estamos numa situação melhor", disse Zuckerberg.
Lanier também pressionou Zuckerberg sobre alegados documentos internos do responsável do Instagram, Adam Mosseri, de 2022. Nestes documentos, Mosseri afirma que as provas mostram que o "principal objetivo" do Instagram é garantir que as pessoas se mantêm envolvidas com a aplicação, especialmente os adolescentes.
O advogado apresentou ainda como prova um e-mail de Zuckerberg de 2016, no qual afirmava que o objetivo era aumentar o tempo gasto em aplicações em 12% ao longo de três anos.
Zuckerberg reconheceu que a empresa já tinha estabelecido essas metas, mas disse: "Nós mudámos isso".
No início do depoimento, Lanier questionou Zuckerberg sobre o seu estilo de oratória e treino mediático.
"Sou conhecido por ser péssimo nisto", disse Zuckerberg.
Este é o primeiro de mais de 1.500 processos semelhantes em todo o país a ser levado a júri, podendo estabelecer um precedente sobre a forma como as empresas tecnológicas são responsabilizadas pelo design dos seus produtos.
Zuckerberg já compareceu várias vezes perante o Congresso para abordar as preocupações sobre a segurança dos jovens e os danos online, mas esta quarta-feira marca a primeira vez que testemunhará perante um júri sobre estas alegações.
Vários pais de crianças que morreram por suicídio ou acidentes relacionados com tendências online devem comparecer ao julgamento. Alguns já tinham assistido ao pedido de desculpas de Zuckerberg durante uma audiência no Capitólio, em 2024, onde reconheceu o apoio de famílias que afirmaram que as redes sociais contribuíram para a morte dos seus filhos.
As empresas negam as acusações, argumentando que os impactos na saúde mental são influenciados por uma série de fatores que vão para além da utilização das redes sociais. Afirmam ter implementado medidas de segurança para proteger os jovens utilizadores, incluindo controlos parentais e contas criadas especificamente para adolescentes.
Em comunicado à ABC News no início do julgamento, um porta-voz da Meta disse: "Discordamos veementemente destas acusações e estamos confiantes de que as provas demonstrarão o nosso compromisso de longa data com o apoio aos jovens".
A Meta afirmou ter feito "alterações significativas" nos seus serviços, como a criação de contas específicas para utilizadores adolescentes.
A comparência de Zuckerberg acontece após o depoimento de Mosseri na semana passada, que contestou a caracterização do uso do Instagram como um "vício", embora tenha reconhecido o que descreveu como "uso problemático".
Mosseri testemunhou que existe sempre um equilíbrio delicado entre “segurança e liberdade de expressão”, afirmando que os utilizadores não gostam quando as opções são removidas do Instagram.
O julgamento em Los Angeles faz parte de uma onda mais ampla de processos judiciais contra empresas de redes sociais. A Meta enfrenta também um processo separado sobre a segurança infantil no Novo México, enquanto as ações interposta pelos distritos escolares — inspiradas nos processos contra a indústria do tabaco na década de 1990 — deverão ir a julgamento ainda este ano.
As plataformas de redes sociais Snapchat e TikTok foram anteriormente citadas no processo, mas chegaram a um acordo com os queixosos no mês passado.
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