UE-Mercosul: Um Acordo de Comércio Livre Histórico Selado Após Mais de Vinte e Cinco Anos de Negociações
Após mais de duas décadas de discussões, adiamentos e impasses, a União Europeia e o Mercosul preparam-se para formalizar um acordo de comércio livre considerado histórico. Este sábado, 17 de janeiro, em Assunção, os representantes dos dois blocos vão assinar um tratado que vai criar um dos maiores blocos comerciais do mundo, abrangendo mais de 700 milhões de consumidores e quase 30% do PIB global.
Iniciado em 1999 entre Bruxelas e os países fundadores do Mercosul — Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai — este longo processo diplomático resistiu a crises políticas, oscilações económicas e forte resistência interna, particularmente na Europa. O acordo marca o culminar de uma saga que se estende por mais de vinte e cinco anos, frequentemente anunciada e depois adiada, antes de finalmente chegar à sua fase decisiva.
A cerimónia de assinatura reunirá, entre outros, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o Presidente do Conselho Europeu, António Costa, juntamente com os líderes do Paraguai e do Uruguai. A presença do Presidente argentino, Javier Milei, permanecia incerta na véspera do evento, enquanto o Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, figura central na aproximação entre os dois blocos, não irá comparecer, embora tenha recebido Ursula von der Leyen no Rio de Janeiro no dia anterior.
Em Bruxelas, a maioria dos Estados-membros apoia agora o texto, apesar da persistente oposição de alguns países, incluindo a França. As críticas centram-se sobretudo no potencial impacto do acordo na agricultura europeia, já fragilizada e recentemente abalada por protestos generalizados.
Na vertente económica, o tratado prevê a eliminação gradual de grande parte das tarifas aduaneiras. Para a União Europeia, abre novas oportunidades de exportação para veículos, máquinas, produtos industriais, bem como vinhos e queijos. Em contrapartida, facilitará o acesso ao mercado europeu de produtos sul-americanos como a carne de bovino, aves, açúcar, arroz, mel e soja, ao abrigo de quotas isentas de impostos.
Este aspecto gera grandes preocupações. As organizações agrícolas europeias temem o aumento da concorrência de produtos considerados mais baratos e sujeitos a normas ambientais e sanitárias menos rigorosas. Os defensores do acordo, por outro lado, vêem-no como uma oportunidade estratégica para diversificar mercados, reforçar os laços com a América Latina e impulsionar o comércio num contexto económico global incerto.
Para além do comércio, o acordo UE-Mercosul é apresentado pelos seus promotores como um forte sinal político. Luiz Inácio Lula da Silva elogiou a parceria como benéfica "para o mundo democrático e para o multilateralismo", enfatizando a partilha de valores comuns como a democracia, o Estado de direito e os direitos humanos. Ursula von der Leyen, por sua vez, destacou "o poder da parceria e da abertura" como motor da prosperidade.
A assinatura ocorre num contexto internacional marcado pelo crescente proteccionismo, tensões comerciais e rivalidades geopolíticas. Para ambos os blocos, trata-se de reafirmar o seu compromisso com o multilateralismo baseado em regras comuns, numa altura em que o comércio global está cada vez mais fragmentado.
Resta agora a delicada fase de ratificação nacional, que promete alimentar acesos debates em vários países europeus. Embora a assinatura do acordo represente um importante ponto de viragem, inaugura, sobretudo, um novo capítulo político no qual as visões sobre o comércio, os modelos agrícolas e as ambições geopolíticas entrarão em conflito.
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