Trump vai receber líderes do Congo e do Ruanda para acordo de paz e acesso aos minerais
O presidente dos EUA, Donald Trump, vai receber os líderes do Congo e do Ruanda na quinta-feira para a assinatura de um acordo que visa pôr fim ao conflito no leste do Congo e abrir o acesso aos minerais críticos da região ao governo dos EUA e às empresas americanas.
Elogiado pela Casa Branca como um acordo “histórico” intermediado por Trump, o chamado Acordo de Washington para a Paz e a Prosperidade entre os presidentes Félix Tshisekedi, do Congo, e Paul Kagame, do Ruanda, é o resultado de meses de esforços de paz conduzidos pelos EUA e parceiros, incluindo a União Africana e o Qatar, e ultima um acordo anterior assinado em Junho.
A nação centro-africana do Congo tem sido assolada por décadas de conflitos com mais de 100 grupos armados, sendo o mais poderoso o grupo rebelde M23, apoiado pelo Ruanda. O conflito intensificou-se este ano, com o M23 a tomar as principais cidades da região, Goma e Bukavu, num avanço sem precedentes, agravando uma crise humanitária que era já uma das maiores do mundo, com milhões de deslocados.
“Ainda estamos em guerra”
Entretanto, os combates continuaram esta semana na região devastada pelo conflito, com relatos de confrontos isolados entre os rebeldes e os soldados congoleses, juntamente com as suas forças aliadas. Trump afirma frequentemente que a sua mediação pôs fim ao conflito, o que alguns no Congo dizem não ser verdade.
Os analistas dizem que o acordo de quinta-feira também não deverá resultar em paz rapidamente. Foi assinado um acordo de paz separado entre o Congo e o M23.
“Ainda estamos em guerra”, disse Amani Chibalonza Edith, uma residente de 32 anos de Goma, a principal cidade do leste do Congo tomada pelos rebeldes no início deste ano. “Não pode haver paz enquanto as linhas da frente se mantiverem ativas.”
Minerais de terras raras
O pacto de quinta-feira assentará também numa Estrutura Regional de Integração Económica que, segundo as autoridades, definirá os termos das parcerias económicas que envolvam os três países, conforme acordado em Novembro.
Na procura de formas de contornar a China na aquisição de minerais de terras raras, a administração Trump capitalizou a necessidade de apoio de segurança do Congo para obter acesso aos seus minerais, essenciais para o fabrico de caças, telemóveis e outros produtos, e dominados pela China.
Espera-se que Trump realize reuniões separadas com os líderes congoleses e ruandeses antes das negociações trilaterais, seguidas da assinatura, agendada para decorrer no Instituto da Paz dos Estados Unidos, em Washington. Vários líderes africanos deverão comparecer à assinatura.
A Câmara de Comércio dos EUA vai também realizar, na quinta-feira, um evento que vai reunir líderes empresariais norte-americanos. As delegações congolesas e ruandesas irão concentrar-se em potenciais oportunidades de investimento em minerais críticos, energia e turismo, de acordo com Yolande Makolo, conselheira sénior de Kagame.
Confrontos em curso
Entretanto, no leste do Congo, os habitantes relataram focos de confrontos e avanços rebeldes em várias localidades. Tanto o M23 como as forças congolesas têm-se acusado mutuamente de violar os termos do cessar-fogo acordado no início deste ano.
Em Goma, controlada pelos rebeldes, que tinha cerca de 2 milhões de habitantes e era um centro regional de segurança e ajuda humanitária antes da escalada dos combates deste ano, o aeroporto internacional continua encerrado, os serviços governamentais como as operações bancárias ainda não foram retomados e os residentes reportaram um aumento da criminalidade e dos preços dos produtos.
“Estamos à espera para ver o que vai acontecer, porque até agora, os dois lados continuam a confrontar-se e a atacar-se”, disse Moise Bauma, um estudante de 27 anos na cidade de Bukavu, controlada pelos rebeldes.
“Precisamos da atenção do governo para continuarmos a avançar”, disse Makolo. “Não nos iludimos a pensar que será fácil. Este não é o fim, mas é um bom passo.”
Causa do conflito
O conflito remonta às consequências do genocídio de 1994 no Ruanda, onde milícias hutus assassinaram entre 500 mil e 1 milhão de tutsis, além de hutus moderados e twas, um grupo étnico indígena. Quando as forças lideradas pelos tutsis reagiram, quase 2 milhões de hutus fugiram para o Congo, temendo represálias.
As autoridades ruandesas acusaram os hutus que fugiram de participar no genocídio e alegaram que elementos do exército congolês os protegeram. Argumentaram que as milícias formadas por uma pequena fracção dos hutus representam uma ameaça para a população tutsi do Ruanda.
O governo do Congo afirmou que não pode haver paz permanente se o Ruanda não retirar as suas tropas de apoio e outro tipo de apoio ao M23 na região. Já o Ruanda condicionou um cessar-fogo permanente à dissolução, por parte do Congo, de uma milícia local que, segundo o país, é composta por hutus e está em conflito com o exército congolês.
Os peritos da ONU afirmaram que entre 3.000 e 4.000 membros das forças governamentais ruandesas estão mobilizados no leste do Congo, operando ao lado do M23. O Ruanda nega este apoio, mas alega que qualquer acção tomada no conflito visa proteger o seu território.
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