Gaza e a redescoberta da humanidade
Quando se fala de grandes transformações na história mundial, podemos referir a conquista de Istambul, a Revolução Francesa, o nascimento da era moderna ou as revoluções tecnológicas.
Neste contexto, a ascensão da época moderna trouxe consigo determinadas premissas: a de que a religião pertencia à história e que, fora da modernidade, nada mais era digno de ser chamado civilização.
Esta mudança foi particularmente evidente no Ocidente, onde a relegação da religião para as margens da vida social deu também origem a uma compreensão distorcida da fé – moldada por movimentos clandestinos, marginais e desviantes.
Operando fora da estrutura dos Estados e à margem da sociedade – especialmente ao lado de correntes associadas à Cabala e ao Sionismo – emergiu uma visão do mundo na qual os seres humanos começaram a colocar-se no papel de Deus.
O Islão, o Cristianismo e o Judaísmo, conhecidos como religiões abraâmicas, moldaram claramente o mundo de muitas formas. Contudo, nos últimos 40 ou 50 anos, parece que as pessoas começaram a seguir a "religião do consumo" e a "religião do capitalismo".
Procurar o prazer, comprar mais, ganhar mais, possuir mais e focar-se apenas na vida material tornou-se quase um objetivo comum para as pessoas em todo o lado.
No meio de tudo isto, o genocídio perpetrado por Israel em Gaza revelou a existência de um tipo diferente de comunidade muçulmana na Faixa de Gaza.
Um médico norte-americano descreveu recentemente em pormenor como a sua experiência em Gaza o transformou pessoalmente, afirmando que a vivência o ajudou a recuperar um sentido de humanidade que acreditava ter perdido.
Perante este genocídio brutal, a exclusão e a destruição, a postura humanitária, a identidade muçulmana e a paciência demonstradas pelo povo de Gaza atraíram a atenção de pessoas de todo o mundo. Imagine um povo submetido a um massacre. Os seus combatentes resistem. Dois milhões de pessoas suportam a fome, a sede e a morte com paciência.
Ao mesmo tempo, o apoio a Gaza expandiu-se por todo o mundo – da América Latina e do Médio Oriente à Ásia Oriental, às capitais europeias e aos campus universitários dos EUA. Em países como a Turquia, foram organizadas grandes manifestações e comícios públicos em protesto contra as ações israelitas em Gaza e em solidariedade com o povo palestiniano.
O genocídio em Gaza começou também a afectar directamente a política dos EUA. Durante o conflito EUA-Israel-Irão, os EUA lutaram para convencer o seu próprio povo da legitimidade da guerra. O impacto da guerra em Gaza já se fazia sentir, e especialmente entre os americanos mais jovens, a oposição ao que consideravam um genocídio injusto em Gaza alastrou. Quando questionados se escolheriam o Hamas ou Israel, muitos afirmaram preferir o Hamas.
Entretanto, o genocídio em Gaza abalou fundamentalmente o paradigma europeu/ocidental. Desde a década de 1960, conceitos como democratização, liberdade, direitos humanos, direitos das mulheres, direitos ambientais e direitos dos animais moldaram o discurso global. Contudo, cresceu a convicção de que muitos desses princípios permaneceram apenas no papel. Hoje, o Ocidente, que se manteve em silêncio perante o genocídio em Gaza, questiona-se internamente.
Na década de 1970, a causa palestiniana moldava os conflitos ideológicos entre esquerda e direita na política mundial e nos campus universitários. Cinquenta anos depois, o mundo voltou a dividir-se em dois por causa de Gaza e das ações de Israel na região – entre os que têm consciência e os que não têm.
Em Istambul, criámos uma iniciativa chamada "Iniciativa Registada para a Humanidade" e organizámos vários eventos. Um deles foi um documentário sobre o Hospital Al-Shifa. O documentário, produzido de forma racional pelo grupo Al-Jazeera, expôs todas as violações contra a humanidade. Sem recorrer à retórica emocional, os jornalistas documentaram a ocupação do hospital passo a passo, produzindo um relato que muitos consideraram uma dura lição de humanidade.
Se perguntarmos o que Gaza ensinou à humanidade, a resposta é esta: despertou a consciência das pessoas de todo o mundo, lembrou-lhes quem são e reavivou o instinto de se solidarizar com os oprimidos.
No mês passado, ao falar sobre a Palestina, o Presidente Recep Tayyip Erdoğan disse que, independentemente das circunstâncias ou do custo, continuaria ao lado dos oprimidos e estaria sempre orgulhoso de apoiar o povo oprimido de Gaza.
Gaza é uma lição de humanidade. Não se pode destruir a humanidade através do genocídio, nem pelos esforços destrutivos dos sionistas que perderam o sentido da consciência humana. O povo que vive em Gaza continuará a recordar ao mundo o verdadeiro significado da humanidade.
Durante esta semana do Eid, enquanto os muçulmanos de todo o mundo celebram a data com alegria e entusiasmo, não nos esqueceremos que uma parte do coração de cada um permanece em Gaza.
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