Alívio tarifário traz novas incertezas para as empresas europeias
Dos viticultores aos produtores químicos, as empresas europeias afirmam que a decisão do Supremo Tribunal de derrubar grande parte das tarifas de Donald Trump oferece um alívio limitado e, em vez disso, obscurece ainda mais as perspetivas comerciais.
Numa decisão que terá repercussões na economia global, o mais alto tribunal dos EUA derrubou as amplas tarifas impostas por Trump ao abrigo de uma lei destinada a ser utilizada em emergências nacionais, infligindo uma dura derrota ao presidente republicano. Mas, embora muitas empresas tenham celebrado após longas batalhas judiciais contra as tarifas, os grupos comerciais, as empresas e os analistas europeus temem que a decisão possa tornar as relações comerciais ainda mais complicadas após os duros acordos comerciais do ano passado.
"Esta decisão... corre o risco de criar um efeito boomerang, gerando ainda mais incerteza e congelamento de encomendas enquanto os operadores aguardam um quadro regulamentar mais claro", disse Paolo Castelletti, secretário-geral da associação italiana de vinhos UIV.
"Esta decisão... corre o risco de criar um efeito boomerang, gerando ainda mais incerteza e congelamento de encomendas enquanto os operadores aguardam um quadro regulamentar mais claro", disse Paolo Castelletti, secretário-geral da associação italiana de vinhos UIV.
" Os EUA são o principal mercado para os vinhos italianos, com cerca de 1,9 mil milhões de euros (2,3 mil milhões de dólares) em exportações em 2024, representando quase um quarto do total das exportações de vinho de Itália para o mundo. Muitas empresas alertaram que Trump provavelmente procuraria outras formas de impor tarifas semelhantes, diminuindo o benefício de taxas mais baixas, enquanto a medida poderia acirrar as tensões entre os EUA e os seus principais parceiros comerciais. A obtenção de reembolsos de tarifas também será difícil.
Em resposta à decisão, Trump anunciou novas tarifas globais de 10% durante um período inicial de 150 dias e reconheceu que não era claro se haveria ou quando haveria reembolsos.
Steve Ovara, presidente do Grupo de Práticas de Comércio Internacional do escritório de advogados King & Spalding, afirmou que as empresas que o seu escritório aconselha, desde grandes fabricantes americanos a grupos de consumo e tecnologia, esperavam que qualquer alívio tarifário fosse de curta duração.
"A principal questão que todos enfrentarão, pelo menos no curto prazo, é a incerteza adicional", disse.
Wolfgang Grosse Entrup, director-geral da VCI, uma associação alemã de empresas químicas e farmacêuticas que representa empresas como a BASF, a Bayer e a Evonik, concordou.
"Para as nossas empresas, este não é o início de uma fase de estabilidade, mas sim uma nova onda de incertezas. Desengane-se quem acredita que isto significa o fim do conflito tarifário", afirmou. "Novas tarifas baseadas em fundamentos jurídicos diferentes podem ser impostas a qualquer momento".
Peter Sand, analista-chefe da plataforma de preços de frete Xeneta, disse que o risco político se mantém para os expedidores, sendo a tendência de redução dos riscos nas cadeias de abastecimento uma "tendência irreversível".
"O dano nas cadeias de abastecimento de muitos expedidores já está praticamente feito e provavelmente não será desfeito", concluiu.
"O dano nas cadeias de abastecimento de muitos expedidores já está praticamente feito e provavelmente não será desfeito", concluiu. A associação francesa de cosméticos FEBEA, que conta com empresas como a L'Oréal entre os seus membros, afirmou estar "muito cautelosa" em relação à decisão e que iria acompanhar a resposta do governo norte-americano, inclusive no que diz respeito a possíveis novas tarifas.
"Estamos todos habituados às reviravoltas neste assunto das tarifas aduaneiras", disse o secretário-geral da FEBEA, Emmanuel Guichard.
Massimiliano Giansanti, presidente da Confagricoltura, a associação italiana de agricultores, afirmou que a decisão americana "desmantela toda a base legal" das tarifas de Trump, mas alertou que complica a situação para os exportadores precisamente quando estes se estavam a adaptar às tarifas americanas.
"Tudo isto gera uma profunda instabilidade numa altura em que precisamos de certeza e iniciamos um processo em conjunto com os nossos importadores americanos", disse.
Na Irlanda, os exportadores de whisky aguardam os próximos passos antes de tomarem qualquer medida, afirmou Eoin Ó Catháin, director da Associação Irlandesa de Whisky, acrescentando que as negociações políticas e a redução da tensão têm maior probabilidade de resolver as disputas tarifárias.
"Esta não é uma solução mágica para eliminar as tarifas", disse. "É apenas mais uma complicação; mais uma reviravolta na história".
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